Caros alunos,

Vocês estão prestes a investir uma parcela significativa de suas vidas no Curso de Mestrado em Informática da UFPb. Achamos prudente, para todos os envolvidos, discutir alguns assuntos relacionados com esse seu (nosso!) investimento para tentarmos, juntos, chegar a um modus operandi aceitável e fazer de sua estadia aqui uma experiência enriquecedora.

Vamos responder a três questões da máxima importância: O que é o Mestrado? Qual é o papel do Orientando? Qual é o papel do Orientador? Discutiremos ainda avaliação e acompanhamento e dicas para escrever bem.

O que é o Mestrado?

O papel do Mestrado é transformar você num mestre. A defesa da tese é apenas um formalismo (importante) para comprovar o fato perante a comunidade científica. Infelizmente, ocorre, mais freqüentemente do que seria desejável, um aluno defender uma tese de mestrado e receber o diploma sem ser mestre. Ocorre também o contrário: um aluno já ser mestre quando inicia o programa de mestrado, mas não tendo o diploma para comprovar o fato.

Por que falamos disso? Em primeiro lugar, porque queremos passar nossa idéia sobre o que é um mestre: é alguém que consegue resolver problemas não triviais sozinho, buscando e avaliando caminhos promissores, e produzindo um resultado que possa sofrer o olhar crítico dos especialistas. Visto desse ângulo, achamos que entenderão o parágrafo anterior: há quem saiba fazer isso ao iniciar mestrado e há quem não o saiba, mesmo depois de defender a tese.

Em segundo lugar, queremos desfazer uma idéia que a maioria dos alunos tem sobre o mestrado. Não é o objetivo do mestrado transformá-lo num expert em alguma área de informática (por exemplo, redes de computadores ou gerência de redes). Repetimos: não é isso o objetivo do mestrado. Você vai acabar sabendo um bocado de coisas sobre a área que você escolher para desenvolver seu trabalho de tese, não há dúvida. Você pode até se tornar expert nessa área. Porém, ser um mestre não é apenas (nem principalmente) isso. É ser capaz de atacar outros problemas quaisquer e chegar a bom termo. Seu assunto de tese é apenas um "estudo de caso" para comprovar que você é capaz de desenvolver um trabalho não trivial de forma independente. Amanhã, serão outros os problemas a resolver e você certamente não deveria precisar defender outra tese para se habilitar, não acha? Lembre disso: você quer se tornar um mestre e não um especialista em, digamos, gerência de redes.

O Papel do Orientando

Falamos acima de transformação em mestre. Lembre que quem vai efetuar essa transformação é você. O esforço é seu.

Aqui vai uma lista do que consideramos seu papel, como aluno. Pense nos itens à luz do que falamos até agora.

  • Seja franco. Se tem um pepino, converse com seu Orientador. O Orientador também deverá ser franco. É uma boa forma de encurtar o tempo total empregado no trabalho.
  • Chegue preparado para as discussões. Se você não está preparado, faça seu trabalho de casa primeiro e venha conversar. Isso não quer dizer que você deve tirar todas suas dúvidas sozinho. O Orientador está aqui para tirar dúvidas. É uma questão de medida. Não tenha medo de falar com ele, mas tente ser um mestre primeiro: o objetivo todo é esse. Então procure soluções possíveis, papers, referências e não desista na primeira leitura. Você não pode exigir do seu orientador que ele faça seu trabalho (ele já é mestre, presumivelmente ...). Você faz. Ele pode orientar e ajudar.
  • Aprenda a usar a danada da crase! Ler coisas suas cheias de erros de português nos deixa de mau humor e você não quer isso, não é ... ? Um errinho aqui acolá se perdoa, ninguém é perfeito.
  • Saiba ler inglês perfeitamente. Na informática, não tem outro jeito. Ponto final.
  • Siga o cronograma estabelecido. Você é quem mais vai ganhar com isso. Seu cronograma de trabalho será sempre negociado entre você e o Orientador, nunca imposto por ele. Ele pode fazer uma pressãozinha mas nunca aceite um cronograma que você não ache factível. Uma vez negociado o cronograma, cumpra-o. Se você ver que não vai cumprir e sua consciência estiver limpa quanto ao esforço desprendido, rediscuta com ele o cronograma. Às vezes, a gente erra mesmo nas estimativas de tempo.
  • Avise seu Orientador se você se ausentar mais do que alguns dias. Basta um mail. Se sumir um ou dois dias, ele não precisa saber. Se você se ausentar um mês, certamente ele vai querer saber.
  • Apareça às reuniões acertadas. Respeite o tempo do Orientador . Ele deve respeitar o seu. Se você não puder aparecer, não tem problema: avise-o antes.
  • Apresentar seminários públicos periódicos sobre seu trabalho. Pelo menos um a cada 3-4 meses. Isso ajuda a manter as coisas sob controle e ajuda a transformar outras pessoas (os ouvintes) em mestres melhores.
  • Assista aos seminários dos outros alunos. Vamos transformá-lo num mestre, certo? Assistir a seminários da sua área é obrigatório. Seminários de outras áreas podem ser altamente interessantes também. Abra seus horizontes ... Não queremos que você seja mestre no assunto de sua tese apenas. Aliás, isso furaria a definição de mestre dada acima!
  • Escrever e publicar pelo menos 1 artigo. Isto é muito bom e estimulante para você. Também é bom para nossos CVs ...
  • Fazer trabalhos adicionais (não relacionados com sua tese). Não devemos exagerar nisso mas estaremos pedindo alguns trabalhos adicionais (apostilas, seminários, home pages, etc.). Se você achar que estamos exagerando, siga o primeiro item acima.

O Papel do Orientador

Depois de falar de suas obrigações, vamos falar dos seus direitos, que tal? Você tem todo direito de exigir:

  • Que o Orientador discuta seu trabalho (ou outros assuntos) com você. Não podemos ser ausentes.
  • Que ele leia o que você escreve. Devemos ler e retornar feedback prontamente. Você pode encher "o saco dele". Isso é uma via de duas mãos e não teremos confronto se você nos criticar honestamente .
  • Que o Orientador acompanhe seu trabalho periodicamente. Seu cronograma estabelecerá pontos de sincronismo e acompanhamento. Mais ou menos a cada 15 dias (pode ser mais freqüentemente).
  • Que o Orientador indique caminhos. Orientar é isso. Nunca vamos deixar você entrar numa floresta desconhecida sem avisar (há muitas florestas que não conhecemos!).
  • Que o Orientador assegure seu assunto tese. Isso significa que você tem direito de exigir uma resposta clara e bem fundamentada quando você perguntar: "Professor, se eu fizer isso que estamos propondo e fizer com qualidade, dá uma tese?" Em outras palavras, assumimos em conjunto. Isso não significa que o Orientador escolhe o assunto de tese. Você pode sugerir um assunto.

Acompanhamento e Avaliação

Seu assunto de tese deverá normalmente ser escolhido no primeiro mês após seu ingresso no programa de mestrado. Definiremos um cronograma de trabalho, conforme mencionado acima e este cronograma indicará alguns eventos de acompanhamento (seminários). Outras reuniões serão agendadas periodicamente, aproximadamente a cada 15 dias, ou mais freqüentemente. O importante é que haverá um acompanhamento periódico do seu trabalho, para cumprirmos nosso compromisso junto à COPIN e outros órgãos cujos recursos utilizamos.

Sua proposta de tese deverá estar pronta, no máximo, 1 ano após seu ingresso. Cada caso é diferente e um aluno poderá aprontar sua proposta bem antes. Os assuntos de tese são medidos para que seja factível terminá-los em aproximadamente 2 anos. Circunstâncias diversas (mas apenas em situações especiais), o trabalho poderá consumir até 2,5 anos. Não mais. É nosso sincero desejo que você não seja um caso especial e que você defenda em 2 anos, no máximo. Vamos trabalhar para isso juntos?

Dicas para escrever

Em vários pontos do seu trabalho, você deverá escrever monografias. A monografia principal é, claro, sua monografia de tese. Temos tido dificuldades no passado com a qualidade dos trabalhos escritos pelos alunos. As maiores dificuldades são de organização e, em seguida, de construção de frases, erros de grafia, etc. Para verificar a construção de frases e erros de grafia, contamos com você e com seus colegas, os quais poderão ajudar se você julgar que não escreve bem. Não queremos receber material mal escrito.

Já a questão de organização ou estrutura do trabalho é outro assunto onde algumas dicas poderão ser úteis. Não podemos errar aqui porque consertar um trabalho mal estruturado é muito difícil (tem que ser reescrito). Consertar frases ou erros de grafia é um trabalho localizado que não implica uma reescrita total.

Damos algumas dicas básicas para escrever um trabalho bem estruturado. Não é a única forma de escrever mas esta metodologia tem funcionado bem.

  • Escrita top-down. Aprendemos a organizar software top-down e essa técnica funciona muito bem para escrever. Quando chegar o momento de escrever algo para nos entregar, vamos pedir uma versão de uma única página contendo tópicos (capítulos de uma tese, por exemplo) e um parágrafo sobre cada tópico. Com esta versão, podemos verificar a estrutura e o encadeamento de idéias e, se você tiver que reescrever, será apenas uma página. Quando fecharmos esta versão, partiremos para o segundo refinamento onde você expande cada item em uma página. O importante neste processo não são as frases exatas empregadas, mas as idéias passadas na estrutura. Nesta segunda versão, o documento inteiro poderá consistir de 6 a 10 páginas apenas. Mais uma vez, se tiver que reescrever algo, será relativamente pequeno e localizado. Você está proibido de escrever mais até que nós examinemos cada refinamento. Falando de uma tese como exemplo, o terceiro refinamento seria de expandir um capítulo de cada vez. Neste ponto, um capítulo poderia ocupar, digamos, 2 a 3 páginas. Quando fecharmos o terceiro refinamento do capítulo 2, você poderá escrevê-lo e nos entregar. Depois poderá passar para o terceiro refinamento do capítulo 3 e assim por diante. O primeiro capítulo da tese (a introdução) é escrito por último.
  • Encadeamento lógico. Em qualquer um dos refinamentos, sempre pense no leitor. Coloque-se no lugar deste e tente apresentar a informação como decorrência natural do que você explicou antes. Isso vai obrigá-lo a apresentar as idéias seguindo um encadeamento lógico. A cada passo, pergunte-se: "O entendimento do que apresento agora depende de alguma informação que não apresentei? Caso positivo, stop!". Depois que você usa essa técnica um pouco ela vem por si só, sem esforço. Aí, escrever se torna um prazer e o leitor vai agradecer ...
  • Não surpreenda o leitor. Um trabalho científico não é um romance onde surpreender o leitor faz parte da arte do romancista. Se o leitor advinhar onde você quer chegar antes de você chegar lá, você está escrevendo bem, de forma clara. Este item está intimamente relacionado com o anterior.
  • Explique o porquê. Não se limite a dizer o que você fez. O trabalho tem muito mais valor quando se fala por quê. É sabendo o porquê das coisas que permite aplicar seu trabalho em outras situações; em outras palavras, seu trabalho fica mais genérico, um atributo essencial de uma boa tese.
  • Brainstorm e posterior organização. Ao montar os vários refinamentos do trabalho, uma técnica poderá ajudar. Primeiro faça um brainstorm das idéias, colocando no papel, em qualquer ordem, todas as idéias que fazem parte do refinamento no qual esteja trabalhando. Anote palavras ou frases curtas apenas. Isso é um exercício que dura uns 15 a 20 minutos apenas. Tudo que lhe vem à mente deve ser colocado no papel. Normalmente, bastará uma folha. Depois, você examina sua lista desordenada de idéias e usa o encadeamento lógico e a relação natural entre os itens para organizar.

Como última observação, assim que nós comprovarmos que você escreve bem, aceitaremos encurtar os passos acima, se você quiser. Só exigimos proceder assim a primeira vez. Depois disso, poderemos continuar assim ou não de acordo com suas preferências.

 

Talvez este documento tenha um tom um pouco sério e assustador demais. Não temos a intenção de dificultar nosso relacionamento. Temos sim o propósito de ajudá-lo da melhor forma possível a concluir um trabalho de qualidade em curto espaço de tempo. Estaremos nos empenhando neste sentido e caminharemos lado a lado e de forma harmoniosa nessa busca de conhecimentos.

Ao trabalho, moçada!

 

Marcus Costa Sampaio

 

 

P.S.: Este documento é uma adaptação de um texto do Prof. Jacques a seus alunos.